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:: Fábula: O Nascer do Capitalismo

22 mar

Texto de Millôr Fernandes

Um homem tinha uma fazenda perto de um rio. Certo dia o rio começou a subir e ele percebeu que sua fazenda ia ficar submersa. Transferiu toda sua família e todo seu gado e todos seus utensílios e móveis para o alto da montanha mais próxima. Havia, na sua fazenda, exatamente 284 quilômetros de cerca de arame farpado. Era um arame de sete farpas por metro, num total de sete mil farpas por quilômetro e, portanto, toda cerca somava 1.988.000 farpas. O homem arranjou um empregado, que, sem comer nem dormir, colocou em cada uma dessas farpas um pedacinho de carne, uma isca qualquer. Quando terminou, mal teve tempo de subir a montanha. Veio o dilúvio.

Durante noventa e três horas choveu ininterruptamente. Durante noventa e seis horas o rio esteve três metros acima da cerca. Mas logo as águas cederam, e rapidamente o rio voltou ao normal. O homem desceu e examinou a cerca. Encontrou, maravilhado, um peixe pendente de cada farpa, exceto três. Ou seja, um total de 1.987.997 peixes. Havia tainhas, e havia robalos, corvinas, namorados, galos e muitas outras espécies que ele nunca vira.

Cada peixe pesava, em média, duzentas e cinqüenta gramas, de modo que o homem tinha um total de 496.099.250 gramas de peixe fresco, ou seja, 496.999 quilos de peixe. Isso tudo, vendido a 200 cruzeiros o quilo, vocês façam a conta e Ah, naturalmente o empregado foi despedido porque colocou mal as iscas nas três farpas que falharam.

:: Fábula: Os Deveres da Hospedagem

12 mar

Texto de Millôr Fernandes

Um moço bem moço mas já bem brasileiro soou um berrador na porta de um velho vizinho do Pantanal pra tomar umas e outras. O velho serviu uma cachaça, mas se lamentou: “Infelizmente não tenho nada pra fazer uns petiscos pra acompanhar essa bebidinha.” “Não seja por isso”, disse o moço, “abatemos meu cavalo.” “Que é isso?”, disse o velho. “Aqui ninguém pode viver sem montaria.” “Eu monto naquilo ali”, disse o moço apontando um franguinho no quintal. “Eu bem que lhe oferecia meu franguinho”, disse o velho entendendo, “mas não tenho com que fazer fogo.” Não seja por isso”, disse o moço tirando o casaco, “queimamos meu gibão de couro.” “E depois como é que você ia se proteger do vento?”. “Ora”, respondeu o moço, “eu uso os galhos daquela cerca ou queimo as traves de madeira do seu barraco.”

MORAL: VOCÊ TEM QUE LEVAR VANTAGEM EM TUDO.

:: Fábula: O Cachorro e o Trem

2 mar

Texto de Millôr Fernandes

Imaginem que o cachorro grandão, policial, estava descansando de um acesso de raiva, exatamente junto dos trilhos da estrada de ferro.

O rabo sobre o trilho, assim. Roncando, o cachorro. Eis que o trem se aproxima. Suspense – o trem que se aproxima é um trem de carga, vem bem lento. Tchoique, tchoique – tchoique, tchoique. O cachorro vai ou não acordar?

Ai, acho que não vai não! Lá vem o trem, cachorro, acorda, bicho! Deus!, o cachorro não acorda e o trem de carga, lento, fuque, fuque, fuque, passa em cima do rabo dele, corta- o. Agora, sim, o cachorro acorda com um uivo de dor e, num salto de ódio, corre contra a máquina, tentando se vingar da mutilação.

Resultação: o trem lhe passa em cima da cabeça e mata-o definitivamente.

MORAL: JAMAIS PERCA A CABEÇA POR CAUSA DE UM RABO.