:: Trocadilho

3 maio

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:: Minhas férias

30 abr

Quando moleque, a volta ­às aulas era sinônimo de redaçao sobre as minhas férias. Era sempre complicado descrever tudo aquilo que passou naquele verao. No meu caso porque eu achava que nunca tinha nada muito interessante para contar aos outros, na minha cabeça era tudo muito igual. Eu sempre pensava, “merda, poderia pegar a redaçao do ano passado”. Mas nunca lembrei de guardá-la…

Resolvi entao fazer esse texto, sobre as minhas férias. Nao sobre as férias do ano passado, mas sobre a parte que eu lembro das 17 primeiras férias de verao da minha vida. A grande maioria delas em Ubatuba, litoral norte do Estado de Sao Paulo.

Minhas férias

Meus avós maternos tinham uma casa na Praia da Enseada, simples e rústica. A casa servia a família toda com apenas dois quartos, um banheiro, uma rede azul, uma ducha branca, o chao de cerâmica vermelha (antigo, mas como era bom deitar o corpo quente naquele piso gelado) e uma churrasqueira (com a grelha mais pesada que eu já vi), o resto é detalhe.

Quem conhece sabe que se trata de um lugar maravilhoso e mesmo para uma criança que nao sabe apreciar certas coisas e dar o devido valor às férias, à casa, à família e à Ubatuba, eu sempre me diverti por lá e sempre me sentia mal no caminho de volta. Era na subida da “Serra de Caraguá” que eu percebia que a moleza estava acabando e que eu precisaria passar por um ano inteiro de aula para poder ter aquele mar todo de volta.

Verdade que o processo da ida nao era sempre as mil maravilhas. Eu ia meio que obrigado, contrariado, pois nao queria sair de perto dos meus amigos do prédio. Mas, como nao tinha poder de decisao algum, sofria calado por uns dias, ficava meio chateado e acabava entrando no carro às 5 horas da manha (para fugir do trânsito) e a partir daí era só alegria.

Com o passar dos anos eu já identificava bem onde estávamos e nao perguntava mais se “faltava muito para chegar”. Lembro bem, como se fosse ontem, dos sinais que me indicavam o progresso da viagem. Por exemplo, eu sabia que faltava pouco para chegarmos à serra porque sempre parávamos em algum posto ou restaurante da Rodovia dos Tamoios para a “pausa do xixi”. Me lembro bem do Chororão, em Paraibuna, onde meu pai fazia uma parada estratégica para comprar um belo “espiral” de linguiça calabresa para o churrascao inaugural. De volta ­à estrada, logo chegavam as curvas intermináveis da serra e quando avistávamos uma série de barracas vendendo vários tipos de banana, pronto, eu sabia que a serra tinha ficado para trás e agora faltava pouco.

“Barraca das bananas” do pé da serra

Nessa hora minha irma ja estava acordada (por causa das curvas sinuosas) e íamos olhando os nomes das praias e os indícios. Passando a Praia de Massaguaçu vinha a Praia de Tabatinga e pronto, Caraguatatuba “ja era”. Agora só mais algumas praias de Ubatuba para encerrar a viagem. Primeira praia, Maranduba, a maior concentraçao de lombadas do planeta. Superadas as lombadas (lá em casa também chamadas de “bulum-bulum” quando éramos pequenos) o próximo ponto que me lembro bem é o Saco da Ribeira, uma praia exclusiva para barcos, bonita de se ver da estrada, mas da areia só me lembro do cheiro de gasolina.

Vista do Saco da Ribeira

Depois do “piscinao dos barcos”, me lembro bem de uma curva acentuada para direita. Talvez a curva nao fosse assim tao forte, mas a essa altura, meu pai certamente ja estava pensando no churrasco e por isso o pé ficava um pouco mais pesado. Passada a “curva do churrasco”, duas lombadas, padaria à esquerda, hotelzinho à direita (com uma antena parabólica brutal), pronto, Rua dos Góes, chegamos.

O portao era antigo (“do tempo do onça” como diria minha mae) pesado, maçiço e sem rodinhas, era erguido no braço mesmo. Me lembro bem de dar umas topadas no portao enquanto tentava abrir o desgraçado. Na parte de baixo, perigo, tinha uma travinha de ferro que riscava o chao enquanto arrastávamos o portao, essa travinha ja arrancou umas lascas dos pés da familia toda.

Descarregávamos o carro feito uns loucos e em poucas horas a casa estava pronta para mais um verao, tudo guardado, camas feitas, casa cheirosa e limpa. Hora de acender a churrasqueira e curtir o primeiro dia de férias da familia. Enquanto tudo era preparado carinhosamente pelos meus pais, eu e minha irma brincávamos pelo quintal, que apresentava algumas “atraçoes turisticas” para seres humanos de menos de um metro e meio. Tinha uma palmeira, que segundo a lenda tinha sido plantada pelo meu Tio Claudio ha uns 30 anos, um dia a palmeira sumiu (sem maiores explicaçoes para os juvenis) e nunca comemos o tal do palmito. Outra atraçao “natural” era o mamoeiro no canteiro dos fundos, que segundo minhas fontes nunca tinha mamao pois os caiçaras passavam antes de nós, sempre.

Na parte da frente da casa, ao lado do portao-monstro, o lava-pés, que delícia, nao tinha meio metro quadrado de superficie, mas para nós era uma piscina com cascata. Quantas vezes tampávamos o ralo para “encher a piscina” e passar a tarde ali brincando. E engana-se quem pensa que eram somente as crianças que adoravam esse lava-pés, os adultos também tiravam uma lasquinha dele quando chegávamos da praia, ardidos, secos e salgados, era o primeiro contato com a agua doce e era o extermínio parcial da areia no corpo (dos joelhos para baixo pelo menos). Quer melhor sensaçao do que essas duas juntas depois de horas fritando no sol?

Casa da família

Depois disso, a ducha, outra maravilhosa e obrigatória parada nos fundos da propriedade, nao muito longe do mamoeiro. Agua doce e gelada. Me lembro de alguns veroes que eu nao cheguei a tomar banho dentro de casa, banho era na ducha! Já imaginou, a criançada de hoje em dia tomando banho no quintal, com água gelada, por 40 dias? As babás morreriam de desgosto… A ducha também servia para uma parada rápida no meio da tarde, antes de dormir ou logo de manha, saindo da cama suado. Com o calor de Ubatuba e como sempre andávamos com “trajes de banho”, qualquer hora era hora de uma ducha, que regalia. Por isso que para mim a frase “ducha de agua fria” tem uma conotaçao extremamente positiva, bem diferente da maioria dos mortais.

Nao muito longe da ducha ficava a churrasqueira. Ponto estratégico do “latifundio”, no setor Nordeste, de frente para o jardim, hahaha, quem conhece o jardim entendeu o “hahaha”. Toneladas de peixes, aves, gados e porcos foram assados, grelhados e devorados ao redor deste monte de tijolos. Depois de 6 horas ou mais de praia, uma criança de 5 anos come o equivalente a dois adultos em condiçoes normais, imaginem uma familia toda! O churrasco era simples: carnes e paes. De vez em quando uma salada para enganar. Arroz e farofa eram acompanhamentos raros, só se alguém fizesse um pedido especial. A idéia era comer carne, oras, arroz??? Sentados nas cadeiras de praia, já devidamente lavadas e secas, posicionados nao muito longe da churrasqueira, na varanda dos fundos, a familia se deliciava enquanto o banquete era servido aos poucos, sem pressa, afinal tempo nao faltava.

Sobremesa e pronto, encerradas as atividades. Agora era matar tempo e esperar o dia de amanha. As vezes era longo esse período, mas na maioria das vezes, nem víamos o tempo passar. Baralho, palavras cruzadas, jornais, livros, música, bate-papo, um lanchinho, as vezes um sorvetinho vespertino, um passeio noturno na praia. Normalmente, esse período entre o almoço e o dia seguinte era passado na sala e na varanda da frente, onde ficava situada a rede azul, um delírio, dava até briga quando alguém nao queria ceder o lugar na rede. Pensando bem, a rede azul era o melhor lugar da casa, depois da ducha.

Raramente, os adultos cediam à pressao da criançada e dávamos uma escapada até o centro para comer pipoca com queijo, comprar mais revistas e fazer alguma coisa diferente. Em geral, nao saíamos muito para outras praias, eram 2 ou 3 passeios pela regiao (Ilhabela, Paraty ou outras praias de Ubatuba mesmo) e umas 2 ou 3 idas ao centro de Ubatuba, quase nada para um periodo de 30 ou 40 dias, as vezes até mais. Mas nem era preciso, a diversao estava ali mesmo, a diversao era ficar em casa e ir à praia. Pegar carro? Trânsito? Calçar sapatos? Colocar uma camiseta? Para quê? Hoje eu entendo, hoje eu faria o mesmo, só sairia para buscar mais mantimentos. Éramos um bando de lagartos praianos!

Na casa nao tinha televisao, Internet nao existia, celular tambem nao, ou seja, o que nos mantinha “conectados” era o jornal Folha de SP e uma linha telefônica da Telesp (que mal era usada), e nao precisava de mais nada. Hoje vejo o mundo conectado 24 horas por dia e pessoas que entram em pânico porque o celular nao tem mais bateira ou porque nao terao acesso à Internet durante 60 minutos de vôo entre SP e Rio. Ridículo! Acho que essas pessoas nao tiveram a infância que eu tive e a vida delas é tao chata que precisam ficar vendo a vida dos outros na Internet para se entreterem. No final das contas, acho que a maior liçao de Ubatuba foi essa, você nao precisa de muito para ser feliz.

É claro que depois de 2 ou 3 dias de chuva o tédio batia em todo mundo, já chegamos a arrumar as coisas e voltar para SP  depois de 2 semanas chuvosas, mas isso aconteceu uma vez, que eu me lembre. Eram 2 ou 3 dias de chuva, depois o sol voltava e a alegria de sair de casa era maior ainda.

Muitas pessoas passaram por lá durante esses anos, férias e feriados, os “habitués” eram a minha familia (pai, mae, irma e eu) e a familia do meu Tio Celso (tio, tia e duas primas), mas o meu Tio Claudio (o da palmeira) também aparecia por la com a mulher e as filhas de vez em quando, meus avós maternos ja nao eram vistos com tanta frequencia por la como antes, uma tia de Fortaleza passou uns bons veroes por la (ela atazanava a galera, mas era uma pessoa divertida e dava uma dinâmica interessante à casa) e as vezes alguns amigos da família. Como éramos sempre os primeiros a chegar e quase sempre os últimos a sair, a expectativa era enorme quando sabíamos que alguém estava chegando, ficávamos, eu e minha irma, no portao, como dois cachorrinhos, esperando ansiosos pelas visitas.

Como eu adorava andar pela praia, naquelas pedras, mergulhar e brincar naquele mar verde. Andar descalço no asfalto quente ou na rua cheia de pedregulhos, pegar ondas com pranchas de todos os tipos e cores e pegar jacarés até a hora de ir embora. Era bom jogar bola, andar de bicicleta e jogar taco. Brincava de pescar com minha super vara de bambu e quando chovia, brincava de lavar os carros e o quintal. Sinto até hoje o cheiro daquela praia, daquela casa, do protetor solar, das jacas que caiam no quintal do vizinho, do camarao frito e do pastel da barraca do Dinho, da caipirinha de côco do meu tio, das empadas da Dona Maria, dos picolés de frutas, do cheiro da cômoda velha (também do tempo do onça) que ficava fechada o ano inteiro (e as gavetas nunca abriam facilmente), do cheiro da rede azul e do cheiro de roupa limpa que era lavada na mao, torcida e estendida no varal dos fundos, e que secava ao sol de Ubatuba.

Como a casa nao tinha forro, a luz e os sons exteriores ficavam mais nítidos. Lembro de olhar para o teto, ainda deitado na cama, e ver a coloraçao da luz entre as telhas, se estivesse laranja era porque o sol já estava raiando lá fora. De noite, quando o mar estava bravo, dava para ouvir de casa o barulho das ondas. Lembro do som da caixa d’agua, as vezes durante a madrugada, era a hora de encher o tanque! Muitas vezes, ficávamos sem águra em pleno mês de janeiro, alta temporada, e o barulho da caixa d’agua era sinal de uma bela ducha demorada no dia seguinte.

Nao tem como esquecer o som das cigarras, que faziam a trilha sonora do verao, só nos dias bonitos, principalmente de manha cedo e no final de tarde, como um despertador e um toque de recolher. E do som dos pássaros, que estavam por todos os lados e faziam até ninhos no telhado da varanda, acho que eram eles que acordavam as cigarras.

Uma pena que eu nunca escrevi esse texto na escola, que eu nunca pensei assim e nunca vi as minhas férias dessa forma. Se tivesse feito, teria entendido muito antes porque elas eram tao legais.


Fim de tarde na Praia da Enseada

:: Nao existe castigo.

25 abr

Nem recompensa.

O que existe é consequência.

:: Aprenda uma coisa:

25 abr

por mais que você mostre, prove, argumente, nao faz diferença…

as pessoas so enxergam o que querem enxergar!

:: A ressaca da partida

20 abr

Imigrante sofre, se diverte, mas sofre…

Nada que muda sua vida drasticamente, mas o Imigra acaba ficando mais cascudo em alguns sentidos, bom, falo por mim, mas acho que como Imigra a gente começa a aceitar melhor as perdas e certas mudanças.

Conversando com um outro Imigra, que tambem esta em fase de mudança, consegui fazer uma analogia, besta, mas que tem muito a ver com a fase que vivemos neste momento, segue um trecho do email que eu mandei para meu amigo Imigra:

“Vocês estao na fase final, no ultimo gomo da bateria, na resguala, no fubazinho, na ventoinha, hahaha

tipo quando vc pede a conta no restaurante:

vc ja comeu, ja bebeu, ja riu e se divertiu…

(eu ainda estou nesta fase)

ai vc pede a conta e fica esperando, nao tem muito o que fazer, no maximo chupar uma balinha ou ir ao banheiro

ou talvez brincar com o fundo do cafe, beber mais um gole d’agua, ou seja, nada de interessante, so matando tempo

nem assunto tem direito, ja falou de tudo, ja riu demais…

vc esta cansado e quer ir para casa dormir, foda-se o resto, amanha vc pensa em tudo

ai vc fica ali, esperando, a toalha meio borrada, migalhas por toda parte, o copo de vinho meio ensebado

vc ja esta fora daquilo tudo, a noite acabou, vc sabe disso, mas vc ainda nao pode partir, tem de esperar a CONTA

(essa é a fase que vcs estao)

ai chega a dolorosa, vc paga, se levanta e vasa

ainda com o gostinho bom da sobremesa na boca e com as boas lembranças de uma noite maravilhosa

(essa é a fase dentro do aviao)

ai meu amigo, vem a ressaca, vc acorda e ve o prejuizo

depende de quanto vc bebeu, de quanto vc gastou, se vc bebeu agua ou nao

pode durar 2 horas ou 3 dias… a gente nunca sabe

(essa é a fase quando vc chega e acorda em SP pela primeira vez, ouvindo os busoes na avenida)

mas depois passa a rebordosa e a vida segue até a proxima noitada

e a gente continua a dar risada!”

é, so rindo mesmo…

:: Fotos do Facebook

11 abr

que agora estao aqui para nao se perderem…

:: Carta a uma mãe adotiva

2 abr

Por Amanda

Você chegou tímida, eu também. Nós nos cruzamos, nos olhamos, fomos indiferentes. Cada uma de nós estava invadindo, ultrapassando os limites da outra, mas não durou muito, eu tive que ceder. Tive que aprender a te conhecer, perguntar por aí o que achavam de você, se você já tinha magoado alguém, se você era do tipo que deixava todos de queixo caído, e no fim os desprezava. Ou se era do tipo que não ligava, que não estava nem aí para o poder e influência que tinha seu charme sobre os outros. Mas não. Aprendi aos poucos que você ia, um a um, acolhendo de forma tão especial, cada um com suas diferenças, suas crenças. Aprendi que você queria ser amada, descoberta e às vezes, por conta disso, fazia transparecer um lado que não era seu, que vinha à tona apenas para os que não sabiam do seu real valor, do seu imenso coração e gratidão. No início relutei para não enxergar o que la no fundo eu sempre soubera. O amor que cresceu dentro de mim em relação a você foi mais forte do que eu um dia imaginei que poderia sentir. O nosso encontro, o verdadeiro, foi muito especial. Foi quando um dia eu senti que poderia te perder. E doeu. Por um instante te vi longe, muito longe. Pude sentir a dor de não desfrutar mais de sua amizade, do seu afeto, da sua generosidade, da sua humildade e honestidade. Você me cativou me pegou pela mão e me levou com você. Me fez perceber e ver suas reais intenções. Você me fez entender, aprender e amar o mundo de outra forma, sob outro olhar, sob um novo ângulo. Você me ensinou coisas que nunca ninguém saberá me ensinar, só você. Você me fez pensar e repensar sobre os reais motivos da existência de nossas vidas, do amor que tenho e sinto pela minha família. Você me mostrou que a vida é extraordinária e que temos que estar perto das pessoas que nos amam e que amamos. Você reforçou a idéia que sempre em mim esteve presente da importância do nosso planeta, do cuidado que temos que ter com ele e com todos que nele vivem. Através de sua forma de ser e de agir, você me fez ser uma pessoa melhor. Eu devo isso a você. Minha querida Montreal, nada poderá substituir esses seis anos de minha vida em sua presença. Você me acolheu me adotou. Você me preparou para um novo mundo no qual eu serei uma boa mãe e melhor esposa, filha e amiga. Você me deu asas e eu preciso voar. Preciso dizer adeus. Se por um lado a despedida é triste, por outro fico feliz de saber que outros poderão e terão o prazer de desfrutar de sua companhia, de sua alegria. Mas não se preocupe, voltarei para te visitar, sentar no seu colo, matar as saudades e recordar como foi bom o tempo que vivemos juntas. Adeus.

:: Viva a vida

29 mar

TEDxSF
Louie Schwartzberg
Gratidão (legendado)

:: Falta coerência

28 mar

Já são quase 2 meses de greve dos estudantes do Québec por conta do aumento dos impostos escolares!

Não quero entrar no mérito do prejuizo aos cofres públicos, pois afinal os professores e as contas estão sendo pagos mesmo sem a devida utilização diária, e depois que a greve acabar, os professores e as contas deverão ser pagos mais uma vez, pois serão necessárias horas e horas extras para recuperar o tempo perdido. E hora extra no Canadá se paga e se paga caro.

Também não quero prolonagar a discussão sobre os prejuízos aos próprios estudantes, e olha que são  vários cenários diferentes. Existem aqueles que acabariam os estudos ao final deste trimestre. Eles provávelmente não terminarão o curso a tempo, não poderão ingressar no mercado de trabalho e ainda por cima terão de pagar mais um trimestre para concluir os estudos. Existem os estudantes que são contra a greve, muitos são contra a greve e contra o aumento, e outros  que não estão nem aí para o aumento, pagam e pronto. Existem aqueles que estão no meio de alguma coisa, para esses os prejuízos serão a espera e o custo de pagar 2 vezes para fazer a mesma coisa. E existem estudantes que sairiam do “colegial” e entrariam na Universidade, mas nao poderão, pois não há lugar para eles enquanto os formandos nao saírem e os cursos atrasados sejam colocados em dia. Esses estão no “limbão”, pagarão duas vezes, ficarão na espera e talvez só consigam entrar na universidade em setembro de 2013. Aí eu me pergunto, o que um jovem de 18-19 anos vai fazer durante 1 ano e meio? Será que eles voltarão a estudar um dia?

Enfim…

Minha opinião: sou a favor do aumento, sou contra a greve, sou a favor da discussão aberta entre estudantes, governo e sociedade e principalmente sou a favor da COERÊNCIA. Explico.

Tirando os casos de extrema falta de bom senso, sou contra greves, pois parto do principio de que para resolver um problema não precisamos criar um outro. Acredito haver soluções mais pacíficas e menos dispendiosas, uma passeata, uma negociação “sindical”, um plebiscito, um debate televisionado, etc. Me chame de ingênuo, mas eu penso assim.  Falamos tanto em democracia, mas raramente vemos sua aplicação prática. O ser humano vai logo partindo para os quebra-quebras e empurra-empurras da vida.

Sou a favor do aumento não por convicção, nem por ser um capitalista fervoroso, mas porque infelizmente vivemos em um planeta corrompido pelo dinheiro e o custo de vida aumenta com o tempo: o leite, a carne, a luz, a gasolina, a inflação, os juros, a dívida interna, a dívida externa, o PIB, o lucro dos bancos e muito mais. Por que não o custo dos estudos? Não vejo justificativa para todos esses aumentos, acho que é pura expeculação e ganância, não sou a favor, mas creio que isso nunca mudará, nem se o mundo entrar em greve permanente.

Por isso que eu falei da coerência, não vejo ninguém fazendo greve porque o leite aumentou, nem porque o preço do pão aumentou devido ao reajuste do preço do trigo consequentemente ao aumento do preço da gasolina que ocorreu após a crise no Iraque. Não vejo ninguém reclamando do seu próprio reajuste salarial anual devido ao aumento do custo de vida. Também não vejo muitos estudantes reclamarem do preço de um iPod, iPad, iMac ou iPhone. Os mesmos estudantes que não têm dinheiro para pagar $400 dolares a mais por ano, tomam um café de $2 por dia no Starbucks, andam vestidos com roupas de marca, bebem cerveja e saem de balada toda semana, pagam $7 por um maço de cigarro, fumam maconha, têm TV HD Flat Screen 3D LED de 46 polegadas, etc.

Onde está a coerência? As prioridades estão corretas?

Se você não quer que o governo cobre mais caro pela educação, perfeito, você está no seu direito, lute por ele. Mas entenda as consequências disso, seja coerente com você mesmo. Saia na rua e brigue contra o aumento de tudo, ou você só é contra o aumento dos impostos escolares. Se sim, por favor, me explique o porquê.

Outra coisa, se você quer pagar o mesmo preço que um aluno pagou em 2005, quando você se formar, seu salário será o mesmo do recém formado de 2005, nem 1 centavo a mais. Aceita? Porque se você náo aceitar, está faltando coerência na sua ideologia.

Ou tudo aumenta, ou nada aumenta, ou um ou outro. Não tem meio termo.

Por que o custo não pode aumentar e o seu salário pode?

Escolha o seu lado.

:: Fábula: O Nascer do Capitalismo

22 mar

Texto de Millôr Fernandes

Um homem tinha uma fazenda perto de um rio. Certo dia o rio começou a subir e ele percebeu que sua fazenda ia ficar submersa. Transferiu toda sua família e todo seu gado e todos seus utensílios e móveis para o alto da montanha mais próxima. Havia, na sua fazenda, exatamente 284 quilômetros de cerca de arame farpado. Era um arame de sete farpas por metro, num total de sete mil farpas por quilômetro e, portanto, toda cerca somava 1.988.000 farpas. O homem arranjou um empregado, que, sem comer nem dormir, colocou em cada uma dessas farpas um pedacinho de carne, uma isca qualquer. Quando terminou, mal teve tempo de subir a montanha. Veio o dilúvio.

Durante noventa e três horas choveu ininterruptamente. Durante noventa e seis horas o rio esteve três metros acima da cerca. Mas logo as águas cederam, e rapidamente o rio voltou ao normal. O homem desceu e examinou a cerca. Encontrou, maravilhado, um peixe pendente de cada farpa, exceto três. Ou seja, um total de 1.987.997 peixes. Havia tainhas, e havia robalos, corvinas, namorados, galos e muitas outras espécies que ele nunca vira.

Cada peixe pesava, em média, duzentas e cinqüenta gramas, de modo que o homem tinha um total de 496.099.250 gramas de peixe fresco, ou seja, 496.999 quilos de peixe. Isso tudo, vendido a 200 cruzeiros o quilo, vocês façam a conta e Ah, naturalmente o empregado foi despedido porque colocou mal as iscas nas três farpas que falharam.