Por COSME RÍMOLI
http://blogdocosmerimoli.blog.uol.com.br/
10 de março de 2009
Juvenal Juvêncio. Presidente do São Paulo, um dos clubes com maior patrimônio na América Latina. Aos 73 anos, administra problemas de ‘grande magnitude’, como preparar o Morumbi para a abertura da Copa do Mundo de 2014, ou supresa, até fazer a final. E questões ‘pequenas, do dia-a-dia’, como o descontentamento de Dagoberto com a reserva.
Mostrou sua alegria com a punição ao presidente Marco Polo del Nero que ousou ‘tentar manchar a conquista do Brasileiro de 2008′. Um dos homens mais poderosos do futebol brasileiro falou hoje por uma hora com exclusividade ao blog.
Juvenal: o que significa para o São Paulo o Morumbi abrir a Copa do Mundo de 2014?
A consolidação da marca do São Paulo no mundo inteiro. Iremos mostrar a nossa força, a nossa capacidade de ter um estádio particular perfeito, para ser observado pelo planeta todo. Será um marco histórico, um fato cultural. Mostrará o poder de um clube bem administrado. Dará orgulho aos seus sócios, aos seus torcedores, a uma cidade, a um país. Chega a ser intangível o benefício que a Copa do Mundo trará para o São Paulo. Vamos mostra a pujança do nosso clube ao mundo. Mesmo que não for adepto do São Paulo, mas for brasileiro, terá orgulho do que faremos no Mundial.
Há muitas pessoas dizendo que o Morumbi terá de sofrer uma profunda reformulação. Que está muito antiquado para os tempos modernos… Pontos cegos…
(bastante irritado) Há muita ignorância por parte das pessoas, principalmente os jornalistas! Ninguém leu o caderno de encargos da Fifa! Para nós ele virou a nossa Bíblia. Sabemos cada item e já o discutimos com as autoridades da própria Fifa, do governo federal, estadual e municipal. O Morumbi está 85% adequado já para a Copa. Temos de fazer 15% de obras para que possa mandar uma partida do Mundial. Mas iremos fazer muito mais. Ontem mesmo tivemos uma reunião noturna no São Paulo muito importante em relação aos pontos cegos, por exemplo.
Presidente, os pontos cegos nasceram por causa da selvageria das torcidas?
Sim. Infelizmente é isso mesmo. Nós tentamos colocar primeiro grades separando os torcedores. Só que eles conseguiam se chutar, se cutucar, pelos vãos. Tivemos, então, de colocar placas sólidas de metais. Nos pareceu a única solução. Só que quem senta atrás dessas placas não enxerga mesmo parte do estádio. Resolvemos ontem mudar para vidros temperados, os mais fortes que conseguirmos achar. Porque alguns, à prova de bala, foram rompidos em um clássico (Corinthians e São Paulo). Infelizmente, temos de conviver com esse comportamento selvagem dos torcedores. Mas nos adequaremos. E também lhe digo que sei que o presidente Lula irá tornar a legislação mais dura para essas pessoas que se dizem torcedoras. Isso vai ajudar para quem possui estádios no Brasil. Ter um estádio de primeiro mundo como o nosso dá trabalho, mas é um privilégio tê-lo.
Não vamos perder o foco: o Morumbi abre a Copa e o Maracanã fará a final?
Olha, não está nada definido ainda. São muitos interesses, muita pressão, lobby político, envolve o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Vi anúncios em jornais falando da força do Pantanal para o Mundial. Que me desculpe o Pantanal, mas não dá para cogitar a hipótese de abrir um Mundial no Pantanal. Quanto ao Maracanã tenho a tristeza em lhe falar que a situação dele é muito complicada. Há um plano de privatização envolvendo Flamengo, Fluminense e CBF. Só que este processo de privatização é complicado. Não é simples. Já li que demorará todo o ano de 2009. E o miolo do Maracanã precisa ser demolido. E depois reconstruído. O tempo será curto. A Copa do Mundo não é brincadeira. Se a situação permanecer assim, vejo a possibilidade até de o Morumbi abrir e sediar a final da Copa do Mundo. É uma possibilidade real, concreta. Escreva o que estou falando.
Mas e Minas Gerais do governador Aécio? Ele já está em campanha para levar a abertura para lá…
Já há pressão de todo o lado. Só que há muita gente equivocada. Não é a Fifa daqui que vai decidir. Será a Fifa verdadeira, a Fifa de fora. E aí irão contar a rede hospitalar, aeroportos, infraestrutura viária. Nós temos Rodoanel. Metrô, hotéis. Quantos hotéis existem em Belo Horizonte para suportar um evento como a Copa do Mundo. Todo mundo tem o direito de brigar pelos seus interesses. Mas conhecendo a fundo os critérios que a Fifa usará para escolher os locais dos jogos, eu fico mais do que confiante. Não sou contra ninguém. Apenas sei o que o São Paulo e o Morumbi têm a oferecer. E para as pessoas não pensarem que estou falando por mim, falo por São Paulo estado, cidade. O governador Serra e o prefeito Kassab estão profundamente envolvidos no projeto Morumbi para a Copa de 2014.
A falta de estacionamento é o maior problema do Morumbi?
Isso é que pessoas leigas falam. É uma grande bobagem. Os estádios do Japão, da Alemanha não possuem gigantescos estacionamentos. O problema é grã fino brasileiro não gosta de andar de metrô. Mas vai andar se quiser ver jogos da Copa do Mundo no Morumbi. Se os ricos da Europa andam de metrô, os daqui vão aprender a comprar e colocar os bilhetes nas catracas. A Fifa exige uma estação de metro a 1.500 metros do estádio. Até 2012 estará terminada a estação São Paulo-Morumbi. Ela ficará a 1.160 metros do estádio. Tudo estará dentro da lei. Você falou em problema. Vou revelar um que ninguém sabe. Teremos e vamos construir um centro de imprensa para cinco mil jornalistas do mundo inteiro no Morumbi. E o que farei com esse espaço assim que a Copa acabar? Isso sim é problema. Estacionamento eu irei construir para dar mais conforto aos torcedores, mas o metrô resolverá o problema de transporte.
De onde virá o dinheiro para a reforma do Morumbi?
Já foi amplamente divulgado. Fora do nosso estádio será o governo federal. Dentro é problema nosso. E já temos vários parceiros para viabilizar a obra. Não usaremos dinheiro público, se é o que você quer saber. Nem um centavo.
O senhor está elitizando o Morumbi com camarotes luxuosos, biblioteca, bar temático. E os torcedores pobres que torcem para o São Paulo?
Eu sei que represento pessoas cuja grande e,talvez, única alegria é ver o São Paulo em campo. O Morumbi sempre terá setores para elas. Sempre. Mas eu não posso fechar os olhos para que o futebol e o mundo mudaram. As pessoas que podem querem e estão dispostas a pagar pelo conforto. Pense em um teatro. As pessoas pagam mais e sabem que terão o prazer de assistir ao espetáculo confortavelmente. Essa tendência é irreversível. Traz lucro ao clube e atende à uma reivindicação de uma camada que pode pagar por esse luxo. Até pode ser elitização. Mas jamais vamos fechar os olhos para os nossos torcedores sem poder aquisitivo. O São Paulo é de todos.
Por falar nisso, o clube está preparado para o Corinthians não jogar mais no Morumbi enquanto o Andres Sanches for presidente?
Nós temos as nossas fontes de renda. Temos os nossos shows. As nossas partidas. Não dependemos de nenhuma equipe de fora. O que posso dizer sobre o caso é que tudo que fica na base da semântica, da conversa, da emoção, precisa ser analisada com calma. Não acredito em uma briga definitiva com o Corinthians. Isso não é bom para ninguém. Vou lembrar uma questão muito mais profunda. Sabe quem são os parceiros que brigam pelas mesmas coisas no Clube dos 13? São Paulo, Flamengo e Corinthians. Estamos juntos. Eu sei disso, o Andres sabe. Enfim, acredito que há questões menores que perdem a importância diante das maiores. E digo mais: o Palmeiras vai se aproximar muito mais do São Paulo e do Corinthians por causa do novo presidente Belluzzo que é de outro nível. O antigo presidente Afonso Della Monica não se envolvia em questões fundamentais para os clubes paulistas. Essa briga entre nós e o Corinthians é uma situação pequena que será resolvida com bom senso.
Por falar em briga, o senhor está satisfeito com a punição ao presidente da FPF, Marco Polo del Nero?
Sim. Essa pessoa quis tirar o brilho da conquista do São Paulo. Levantou questionamentos sem fundamento na decisão do Campeonato Brasileiro. Tinha de ser punida exemplarmente. Foi sensacional porque mostrou a transparência e a força da justiça no Brasil. Foi o primeiro dirigente realmente com poder punido. Não foi uma vitória do São Paulo foi da justiça. Agora, eu soube que ele está indo todos os dias para o prédio da Federação Paulista de Futebol. Só que sua assinatura por noventa dias não vale nada. Ele não pode despachar. Ele vai e manda outras pessoas assinarem. Soube também que acompanhou a reunião entre dirigentes do Palmeiras e do Corinthians em relação ao clássico de Presidente Prudente. Achei normal. Como conselheiro do Palmeiras ele tinha de estar lá para saber o que aconteceria com o seu clube.
De uma forma direta: explique a diferença para o presidente do São Paulo a diferença entre Libertadores e Campeonato Paulista…
Vejo como qualquer torcedor de arquibancada do São Paulo: a Libertadores é a prioridade. Todos têm a minha ordem para colocá-la sempre em primeiro plano. Sempre. O São Paulo tem objetivos maiores, buscar o que o mundo apresenta como maior desafio. E nós já não ganhamos a Libertadores faz tempo. É simples: se de para ganhar o Paulista, a gente ganha. Mas conquista para um clube como o São Paulo é a Libertadores, o Mundial, o Brasileiro. Nós contabilizamos essas conquistas. E não escondemos isso de ninguém.
Por falar em problemas, como vai agir em relação ao Dagoberto que está insatisfeito com a reserva?
Sei do caso Dagoberto. Mas é um problema interno. Só lhe digo que no São Paulo não há espaço para jogadores insatisfeitos, descontentes. O Dagoberto vai voltar a ficar contente. O jogador quando vem para o São Paulo sabe que a instituição é mais importante do que o desejo pessoal de qualquer um. Vale para ele e para qualquer pessoa. O Muricy tem toda a minha confiança e sabe como agir. Ninguém tem o direito de se achar mais importante ou no direito de atrapalhar o grupo. Ninguém. O São Paulo é maior do que todos nós.
Qual o prazer de ser presidente do São Paulo?
Saber que comando uma das maiores instituições esportivas do mundo. Mas que cinco minutos depois que o jogo termina, o prazer vira preocupação. O meu clube é importante demais. E exige demais de quem for o seu presidente para mantê-lo assim. Eu quero e o clube exige o máximo, o melhor para o São Paulo. E isso não é fácil em um mundo em crise.
Você ainda será presidente do São Paulo quando acontecer o primeiro jogo da Copa de 2014? (Seu mandato termina em 2011.) E onde estará?
Bom…Só sei que serei mais um são paulino na arquibancada do Morumbi. E orgulhoso do estádio moderno, confortável que mostraremos ao mundo. O Morumbi será referência para o mundo. Se serei presidente ou não, não sei dizer… Ah..deixa isso para lá, Cosme…