Por GUSTAVO GESSULLO
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20 de junho de 2007
Foi Mr. Roquefort quem começou a discussão, estava possesso com esta rotulação exagerada em cima do Catupiry. Decidiu convocar uma reunião em sua própria casa, vieram todos: o popular Muzzarela, o entojado do Gruyere, a sofisticada Brie, o esquisito Gorgonzola e seus pequenos fungos, o redneck do Cheddar, o elitista Camembert, o encorpado Parmesão, a natureba da Ricota, o difícil Blue Cheese, o fresco do Gouda, até os populistas Coalho e Minas meio que a contragosto de todos só que politicamente bem-vindos. Questionado pela ausência de queijos como Requeijão e Cream Cheese, Roquefort foi explícito na sua teoria da segregação:
“Olhem bem meus caros, somos queijos, eles não. É questionável até a autenticidade do Catupiry então para este dois aí nem sequer abro discussão. São misturas!” – e fez uma cara de desgosto.
Todos aplaudiram fervorosamente, inclusive Coalho e Minas que antes pensavam não fazer parte deste grupo julgado elitista e tal e o reconhecimento social para eles era algo tão sonhado como fazer parte de um cardápio francês. Após os aplausos cessarem, Camembert, sempre ele, deu seu pitaco final:
“Mas olhem bem meus amigos, há tempos que o Requeijão compete com o Catupiry, quem nunca viu em cardápios de segunda por aí o tal do Requeijão Cremoso? Me pergunto novamente se não devamos o incluir numa próxima reunião. “
Coalho, inoportuno e vulgar como só ele é, brincou:
“Chama o Cremucho também!” – e todos riram.
“Mas e o Polengui?” – questionou o esperto Minas.
“Oras, é só uma criança. Aquele queijo eu não levo a sério.” – finalizou Roquefort.
Quem estava mudo e calado desde o começo era o Cheddar, pois todos ali sabiam do seu flerte descarado com os cardápios populares apesar do status de queijo gringo quando chegou aqui. E ele gostava disso na verdade, Cheddar tinha um pouco da síndrome do seu país de origem, queria dominar o mundo. Via sua popularização com bons olhos e trabalhava arduamente para não sair de cardápios de lanchonetes requintadas que garantiam sua fatia no mercado entre os mais afortunados, pensava nos dois lados da mesa. Cheddar sustentava uma verdadeira tática secreta de guerrilha contra o Catupiry. E é claro, ser visto como alguém que quer o lugar de Catupiry sem dividir o espaço, não seria bem-vindo ali. “São tempos de guerra” – pensava sempre ele “E devo usar minha inteligência soberana nestes países de terceiro mundo acostumados com queijos de quintal”.
Quem não estava contente era Brie. Rolavam boatos de que ela havia se rendido aos encantos do Catupiry e até de que o Polengui era fruto de uma relação proibida entre os dois. Pois bem, a verdade é que Brie sempre flertou com geléias e afins e quando veio ao Brasil se deparou com a deliciosa Goiabada. E todo mundo sabe que somente deliciosa a Goiabada não é, mas também bem safadinha: vai sempre com o Minas, já foi com Queijo Prato, tem momentos com o Coalho e acabou enlouquecidamente apaixonada nos braços do Catupiry, há quem diga até que hoje sinônimo de Romeu na famosa sobremesa Romeu-Julieta, não é mais o Minas. E Brie entrou na onda, conheceu Catupiry de tabela e apesar de raro de se flagrar, os mais afiados como Camembert e Roquefort juram que já pegaram esta proibida mistura em cardápios de pizzarias.
“Vamos começar nossa reunião” – começou Roquefort – “Porque ele, bem ele, conseguiu o mais belo dos triunfos: um produto, um queijo como todos nós, ter seu nome estampado como marca. É no mínimo injusto, não conheço por aí uma marca Roquefort, Camembert, conhecem? Que tipo de favorecimento a sociedade e os investidores vem dando a este tipo de queijo?”
“Nem mesmo eu!” – levantou Muzzarela. “Nem mesmo eu, o mais popular de todos aqui! Estou nas massas, nas pizzas, nos risotos, nos omeletes, nos salgados diversos, misto-quente só existe por minha causa! Venho assim de geração em geração sem perder a pose, sempre no topo, mas aí chega um moleque metido a queijo, este tal de Catupiry, e quer posar de bonitão? Lembrem-se vocês que o Quatro Queijos original não contempla o Catupiry e hoje, ele já desbancou queijos tradicionais como o Parmesão!”
“Tem razão” – pontuou Camembert, invejoso no fundo. “Se existe alguém aqui que merece ser uma marca é você caro Muzzarela, veio com os imigrantes italianos, ajudou a construir este país e cadê o reconhecimento? Do Braz, do Bom Retiro e do Bexiga para todos os bairros em tão pouco tempo, nunca preconceituoso, sempre em qualquer prato, em qualquer classe social. É chique e popular ao mesmo tempo, um ícone, um mito!”
Enquanto Roquefort, Camembert e Muzzarela participavam ativamente, Parmesão estava calado como nunca. E aquilo chamou a atenção dos líderes daquela reunião, porque aquele queijo tão nobre e de presença marcante que sempre teve o merecido respeito e voz ativa estava assim tão calado?
“Parmesão? Parmesão, querido?” – Camembert pediu que Gruyere o cutucasse.
“Oi, estou aqui” – Parmesão levantou-se de sopetão, soltando lascas pelo chão. “Não sou um queijo popular, ou sou?” – e todos concordaram com sua afirmação. “Mas eu queria explanar aqui minha revolta em relação a minha versão ralada.” – fez-se um silêncio monumental pois a versão ralada sempre foi um assunto tabu para o Parmesão, como um filho bastardo. “Nunca fui contra a esta minha singular versão, tão sempre bem apreciada principalmente em massas e risotos e que fez crescer o apreço do povo por este queijo que vos fala. Mas aí veio algum idiota e me joga numa porção barata de polenta frita, vocês se sentiriam como? E de risoto, pulo prum arroz de forno caseiro, isso engrandece um queijo? E viro ingrediente de tortas, jogam-me em batatas fritas oleosas e pegajosas, estou até em versões congeladas de lazanha! E como vocês acham que anda minha auto-estima, hein? Sou um homem sem pátria hoje, ou melhor, sem prato. Vou em tudo, e só minha versão ralada. Para mim, só sobram apreciadores de lascas de parmesão que me lapidam vorazmente. Eu vejo meu nome sendo comercializado como Teixeira, Faixa Azul, quem são eles para me popularizarem assim? Produção em massa de um queijo italiano, má quê?!”
“Parmesão” – interrompeu Gorgonzola. “Com sincero respeito à sua dor, podemos discutir isso mais tarde? A pauta é o Catupiry.”
“Fala isso só porque não podem te ralar e te vender em sacos plásticos, seu miserável!” – Parmesão caiu aos prantos. E chorando, conclui “Já viu em cardápios – Provolone à milanesa? É horrível! Me cortam em pequenos cubos, me fritam todo e depois…(fez uma pausa)…vou à mesa de famintos que só querem sentir o gosto de uma boa fritura, por acaso alguém avisou à eles que não sou um bacon?! (chorava compulsivamente). E me mergulham em maionese e catchups…”
Gorgonzola, arrependido, foi consolá-lo e achou melhor o levar para dar uma volta lá fora. Parmesão estava descontrolado e aquilo poderia gerar uma revolta individual coletiva, que queijo ali não se sentia hoje menosprezado pela sociedade também? Dali para o Gruyere reclamar que andava sendo usado para gratinar batatas seria um pulo. Roquefort tomou a frente e pediu silêncio.
“Queridos, voltemos ao Catupiry.”
“Sim, voltemos a ele” veio o coro geral.
“Outro dia fiquei sabendo de uma coisa que levou a este estopim. E qual foi minha surpresa quando em uma pizzaria refinada dos jardins, é claro, vi estampado no cardápio a logomarca do Catupiry”
“Ohhhhhhhhhhh” – todos estavam espantados.
“Agora é lei amigos! Além de intromissivo, é mesquinho! Para um estabelecimento dizer que tem Catupiry no seu cardápio, deve ter o seu logo impresso no cardápio!”
“É por isso que acho importante a presença do Requeijão, caro amigo Roquefort. É ele o queijo mais prejudicado diretamente, Catupiry fez isso para barrar sua expansão. Todos sabemos que o Requeijão Cremoso é uma pobre mistura entre queijo e leite, gordurosa e opaca, sem a densidade que um queijo cremoso merece, não é Mascarpone? Mas tachá-lo de imitação barata é outra coisa, afinal ele tem vida própria. Ele seria um excelente aliado e dos mais fervorosos!”
“Pouco me lixo com o Requeijão” – Gruyere tomou partido pela 1 vez. “Vocês não enxergam oque está por trás disso? Em menos de 5 anos eu garanto que o Catupiry será um queijo de ordem nobre! A sua esperta tática de imprimir-se em cardápios, banaliza a trajetória ascedente do Requeijão Cremoso, colocando-o de fato num patamar de queijo imprestável, de imitação barata, lhe sobrando o mercado de pizzarias delivery e botecos de esquina. O Catupiry é o 1º queijo marketeiro da história!”
“E oque fazer para impedí-lo?” – berrou Cheddar, devidamente preocupado com o que ouviu.
“Sinceramente não sei” – Gruyere baixou a cabeça.
“É de fato uma atitude previsível” – gritou a Ricota lá do fundo. “Um queijo como você que não é usado para o paladar popular, que só é usado em cardápios caros e em fondues. Você não vive oque vivemos: a banalização de nosso uso fruto. Aliás, eu aponto o dedo para o Roquefort, Camembert e outros aqui nunca foram usados com banana, tapiocas, fritos em pastéis e omeletes, com catchup nas pizzas e em sujas chapas de lanchonetes!”
Ricota sempre dava uma dessas nas reuniões, era revoltada e extremista como toda natureba. Não percebia que ela mesma nunca tinha entrado numa chapa suja e não aceitava o fato de ter virado ingrediente de sobremesa.
“Cale a boca Ricota! Você é mais popular no cheesecake do que sozinha!” – Brie tinha uma rusga com ela.
Ricota era realmente um caso a parte. Nascida para ser apreciada sozinha, no máximo com temperos e em pães e massas, acabou sendo associada a doces italianos como a panacotta, cassarola, osfogliatela ou a doces americanos como o cheesecake. De musa do salgado para musa do doce, perdeu sua identidade. Relutando para estar somente aos cardápios de docerias, acabou se rendendo a buffets vegetarianos, sanduíches naturais, pizzas e comidas sem gosto algum. Pobre Ricota, comparada hoje ao intragável Cottage, que aliás não estava ali por falta de respeito pois foi chamado mas devia estar exercitando seu domínio nos cardápios de academia.
Mais uma vez ele, Gorgonzola, e seus pequenos fungos fizeram à boa ação de retirar a enlouquecida Ricota do recinto, Parmesão reabilitado voltava ao seu lugar. Gorgonzola fazia de tudo par manter esta fama de “sou feinho mas sou bom”
“Pessoal, retomando” – Roquefort apropriou-se da palavra “E tentemos nos focar no Catupiry, por favor” – todos concordaram. “Gruyere tocou num ponto importante aqui, Catupiry objetiva a dominação. Há dez anos atrás, lembro de um papo que tive com o Camembert onde ironizamos um novo recheio que havia sido incorporado nas pizzarias: frango com catupiry. Pensamos isso é besteira, quando um adulto vai querer comer um recheio tão sonso como esse. Mas o fato, as crianças adoraram.
“E adoram!” – berrou o Cheddar meio que desesperado.
“Ele está buscando as novas gerações meus caros. Quem pede hoje recheio de Aliche? E Atum? E Escarola? Só a velha-guarda. As crianças de dez anos atrás hoje são jovens com o Catupiry incorporado em seu paladar, claro que percebem com o tempo que o lugar de frango é na churrascaria, mas o Catupiry os acompanha e eles vão criando novos recheios: calabresa com catupiry é hoje um recheio popstar!
“O sabor Toscana é meu! – gritou Mussarela.
“Era Muzzarella. Calabresa moída hoje vai mais com Catupiry, desculpe a verdade.” – Muzza abaixou a cabeça e assentiu com a afirmação. Não queria escutar aquilo, há tempos percebia que estava sendo trocado, bem ele um acompanhamento tradicional. “O frango é uma isca poderosa para as crianças, é genial, é brilhante! Criança gosta de coisa insossa! É preciso admirar seu adversário acima de tudo!”
“E tem outra” – Gruyere tomou a frente “Quem foi o pioneiro em ir do recheio para a borda?” – todos se entreolharam embasbacados. “Outra tática fantástica! Catupiry invadiu as bordas e virou sinônimo de borda recheada.”
Queijo Prato, tímido como ele só, levantou a mão. “Oi gente!” – E era meio bobo também. “Eu gosto do Catupiry”.
“Seu idiota!” – berrou o insolente Camembert. “Depois reclama que você só entra em tábua de frios! Nem como queijo aperitivo você é visto mais, isso que dá ser um sujeito tão bom assim, tão bom coração”. E era a mais pura verdade, como era dócil e bom aquele Queijo Prato! Tinha potencial para concorrer com a Muzzarela, mas ele era amigo de todo mundo, ingênuo, sem inimigos, quando alguém ficava em dúvida entre ele e a Muzzarela, ele meio que se omitia porque achava que não era bom o bastante. Queijo Prato subestimava si mesmo. A bondade lhe foi um golpe poderoso, virou sinônimo de frios. No começo ainda flertava só com o Peito de Peru, o Lombinho mas quando se envolveu com a Mortadela, foi o estopim para ser considerado um queijo do povo e nada mais. Alguns diziam que era o típico queijo que nasceu para ser pobre e ele era tão bom, mas tão bom, que nem ligava para isso. Queijo Prato só queria amar e ser amado.
Em meio à discussão, as portas da sala de abriram. Mediram os presentes do pé a cabeça, até queijos como Camembert, Roquefort e Gruyere. Eram eles: Tofú, Morbier, Blue Stilton, Pecorino, Ementhal e Manchego.
“A turminha dos descolados.” – sussurou Brie para sua amiga Ricota, que já estava de volta.
“Ficamos sabendo desta reuniãozinha” – disse o folgado Morbier
“Não receberam meu comunicado?” – Roquefort era patético, odiava esta turma do fundo de seu coração e era covarde na frente deles. Mas tinha uma explicação: seu relacionamento com a deliciosa Ementhal, que hoje andava nos braços do forte Pecorino.
“Este tal de Catupiry nos interessa também” – argumentou Tofú, um queijo que irritava a todos. A começar pelo fato que era feito de leite de soja, patético. E por causa disso, se achava versátil e saudável. Mas o fato era que tinha história, foi inventado pelos chineses há mais de dois milênios e nos últimos anos com a onda natureba cresceu e ganhou definitivamente seu espaço no mundo ocidental.
“Volta pro seu Mishoshiro!” – Parmesão exaltou-se. “Você não tá em pizza, não tá em massa, não tá em salgados, muito menos em doces, só te vejo cru, no máximo defumado, e em cardápios orientais. E que gostinho vagabundo é este seu hein! Dá a mão pro Cottage e sai andando!”
O clima esquentou, a Mussarela começou a derreter de raiva também, tinha um ódio mortal do Tofú, que dizia que era a Mussarela do Oriente.
“Parem!” – Coalho, o capial dos queijos, fincou seu palito no chão. “O nosso objetivo não é o tar do Catupiry, oras?”
Ementhal pediu a palavra, antes bisolhou a embalagem da Brie e da Ricota e, sabendo que estava muito mais encorpada, sorriu com desleixo para as duas. “Quem ficou sabendo desta reunião fui eu, nada como embebedar um queijo chucro, não é Minas? Pois bem, viemos aqui pois temos uma sugestão interessante contra esta dominação do Catupiry. Afinal, somos quase todos aqui queijos mundiais e quem é Catupiry no mundo?”
“Tem país aí que anda usando já” – alfinetou Gruyere. A birra de Gruyere era tanta da Ementhal que queria fatiá-la ao meio! Tudo por causa de um pé na bunda que a saborosa Ementhal lhe deu. Bem nele, considerado pelos suíços “o rei de todos os queijos”.
“Mas ele ainda não é nada, querido. Nossa proposta é um jeito de barrar isso de vez: nos unirmos para criar um superqueijo poderoso.”
“Como assim?!” – Cheddar babava de prazer súbito.
“Imaginem um queijo com todas nossas propriedades? Um paladar como nenhum outro, numa mesma mordida você tem a leveza da Brie, a cremosidade do Marcarpone, o refinamento do Camembert, a presença marcante do Parmesão e do Provolone, a brasilidade latente do Coalho e do Minas, a pureza do Queijo Prato, a familiaridade da Mussarela, a boa estranheza do Gorgonzola, o imperialismo do Cheddar, a brusqueza do Blue Cheese…” – e assim foi Ementhal conquistando todos seus ouvintes, um a um, adjetivando-os de forma sublime e irresistível. Quando terminou, estavam todos prontos para qualquer coisa pelo superqueijo.
“Esta nossa superunião, este superqueijo vai ser único e onipresente. Como um queijo insonso e brega como o Catupiry pode competir com algo destes? Vamos acabar com ele!” – se excitou Cheddar.
E então convocaram todos os tipos de queijos deste mundo: Tilsit veio especialmente da Rússia, Saint-paulin pegou o primeiro vôo da França até aqui, o argentino montanhês também apareceu, até o petulante Maasdammer veio da Holanda. Todos contagiados pela idéia de deter Catupiry, de suprimir suas forças cremosas. Ascenderam finalmente a fornalha e entre urros de alegria e esperança, pouco a pouco se derreteram todos formando uma massa uniforme e poderosa.
Enquanto isso na casa do Catupiry…